Fic News: quando o jornalista projeta seus próprios desejos nas notícias

O jornalista e publicitário Vinícius Yamada cria um termo para definir as matérias jornalísticas que possuem um ar de "fanfic" e "fake news"

Em uma crônica intitulada “Suposto caso de suposto gay que supostamente desperta suposições” para portal de notícias Gay Blog Br, o jornalista e publicitário Vinícius Yamada definiu um termo para as notícias que valem de suposições: as “fic news”; uma mistura de “fanfic” e de “fake news”.

“No jornalismo, o termo suposto’ sempre performou bem como benefício da dúvida para evitar injustiças com alguma das partes envolvidas na matéria. Mas recentemente tem sido empregado fora da razoabilidade do benefício da dúvida, como espécie de licença poética para que redator sacie o desejo da própria imaginação ou simplesmente como estratégia de clickbait. Frequentemente presente em temas relacionados com a exposição da sexualidade de alguém”, conta o jornalista.

“A ‘liberdade poética’ do redator disfarçadamente transforma a notícia em fanfic, igualmente proporcional àquelas correntes de Whatsapp que usualmente chamamos de fake news e fazem pessoas acreditarem que, por exemplo, existe mamadeira de piroca em escola pública. Começa num tom meio descontraído, com um assunto aparentemente fácil de ser desmentido e, de repente, se torna um endosso para convicções infundadas. Aí as fic news se tornam equipamentos partidários que ceifam direitos e estimulam a produção de mais mentiras “, analisa Vinícius Yamada.

Para ilustrar o jornalismo de suposição, o colunista cita três exemplos de fic news recentes que envolvem personalidades da televisão: Felipe Prior, Daniel Lenhardt e Gugu Liberato.

Para Felipe Prior, alguns jornalista usaram uma foto do arquiteto em um torneio esportivo de faculdade para criar um enredo onde ele “supostamente” estaria fazendo sexo oral em outro homem, mesmo a imagem contrariando as fic news. Por conta de um vídeo de 15 segundos onde Daniel Lenhardt diz que quer “provar de tudo”, já surgiram notícias fantasiando sua sexualidade como bi e pansexual.

No caso de Gugu, Vinícius aponta que o apresentador já tem uma vida própria pós-morte que poderia ser resumida em: “Supostamente gay, mas supostamente bissexual por suposta fala de advogado, Gugu Liberato não deixou herança para suposta esposa; vejam a foto do suposto caso do Gugu que supostamente teria viajado com ele recentemente”.

Para o comunicador, o perigo do jornalismo de suposição é o leitor se acostumar em acreditar em histórias fantasiosas, que se alinham muito aos discursos fascistas e supostamente religiosos. “O receptor se transforma em gado e não sabe o porquê de estar pastando”, conclui Vinícius.

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